03 de setembro de 2018

A Europa se preocupa com um Brasil que caminhe para o isolacionismo, a militarização da vida pública e a polarização social, diz o ex-presidente do Parlamento Europeu e deputado alemão Martin Schulz, do Partido Social Democrata (SPD).

Nesse contexto, e diante do avanço de partidos de extrema direita no mundo, Schulz, 62, avalia como urgente que a “maioria silenciosa” se manifeste, parafraseando o filósofo Edmund Burke (1729-1797): “para que os maus vençam, basta que os bons se calem”.

O social-democrata veio ao Brasil prestar solidariedade ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cuja candidatura considera irreparavelmente prejudicada por sua prisão na Polícia Federal em Curitiba, onde o visitou. O SPD tem ligação histórica com o PT.

Crédito: Vigília Lula Livre

Schulz, que falou à Folha em São Paulo nesta sexta-feira (31), se encontrou ainda com o vice de Lula, Fernando Haddad.

A viagem causou polêmica na Alemanha: embora seu partido integre a coalizão de Angela Merkel, Schulz veio apenas como deputado. Ele diz ter informado o ministro das Relações Exteriores, Heiko Maas, do objetivo da visita, mas não debateu a situação de Lula com a chanceler.

Como foi seu encontro com Lula [na quinta, 30]?
Discutimos as acusações levantadas contra ele, fizemos uma apreciação da situação política no Brasil do seu ponto de vista e discutimos as estratégias eleitorais do PT. Vi um homem bem-disposto, decidido, concentrado e muito focado. Foi um encontro muito emocionado, e a impressão que tive dele foi muito boa apesar da situação difícil.

Como vê a questão da prisão de Lula candidato presidencial?
Enquanto observador externo, tenho de partir do princípio de que no Estado de direito democrático existe uma Justiça independente que vai trabalhar de acordo com os princípios de imparcialidade e neutralidade. Parto do pressuposto de que o Brasil é como os outros países.

Mesmo assim, desde que foram apresentadas as acusações contra Lula, e Lula não é qualquer um porque é ex-presidente, vejo uma sombra pairando. Se contra um ex-chefe de Estado se apresenta esse tipo de acusação, a Promotoria tem de ter 100% de segurança. Sinto que tudo é possível, mas que nesse processo há mais dúvidas que respostas.

A Comissão de Direitos Humanos da ONU colocou essa questão na mesa para o público internacional como algo que está causando um dano irreparável ao candidato.

Como avalia o cenário eleitoral brasileiro?
Percebemos uma radicalização no debate eleitoral que se traduz não apenas no linguajar, mas no desenvolvimento de uma perspectiva política e ideológica. Se isso prevalecer, o Brasil entraria para o rol de países que escolheram a via do nacionalismo e do isolacionismo, da militarização da vida pública e da polarização da sociedade em várias camadas. Outro dia uma colega fez uma comparação com as Filipinas do presidente Rodrigo Duterte.

A última vez que veio ao Brasil foi há 10 anos. O que encontrou de diferente desta vez?
Tudo. Há 10 anos o Brasil era um país emergente, admirado internacionalmente. Todos nós na Europa, sobretudo no Parlamento Europeu, esperávamos ansiosamente e observávamos o desenvolvimento do Brasil, tanto politica quanto economicamente. O Brasil nunca havia sido visto como uma força motriz internacional e passou a ser. Lula, como presidente, foi a figura dessa abertura, do papel ativo na política multilateral, como nunca antes na história do país.

Hoje, só encontro pessoas muito preocupadas e, quando leio notícias sobre alguns candidatos, perco o ar, e não no sentido positivo. Nós sentimos a crise [nessa visita].

E não me refiro apenas a Jair Bolsonaro [PSL]. A estagnação política, desde o impeachment de Dilma Rousseff, é palpável. Nota-se que o governo está só preocupado consigo mesmo.

O Brasil é um país-chave para a América Latina. A eleição aqui é crucial para o resto do mundo. Vai ser decidido se a maioria da população é a favor da volta de uma política de inclusão social e da solidariedade, em termos internos, e do multilateralismo em termos externos, ou se prevalece essa luta de classes dentro do país e o isolacionismo. A eleição tem enorme importância.

A Europa tem visto a ascensão de partidos nacionalistas, anti-imigração, de extrema-direita e neonazistas. Os EUA elegeram Donald Trump. Como explica esses fenômenos?
Vou citar três motivos que julgo essenciais. O mundo está cada dia mais complicado. Estamos cada vez mais integrados, mas para muitas pessoas fica a sensação de que há uma perda da ordem e da segurança. Quanto mais precária fica a situação devido à globalização, e quando isso se soma ao medo de que ela coloque em risco a economia do país, tanto mais se torna radical a oposição à globalização.

Outro elemento é que há políticos cínicos que justamente se aproveitam desses sentimentos de temor que se reforçam mutuamente, de perda de identidade e de uma ameaça econômica, e exploram isso com mensagens altamente simplificadas que propagam a política da ordem e dizem: “se votarem em mim, vou reestabelecer a ordem”.

Combinando isso com mudanças nas comunicações, quando esses políticos têm interação imediata com os eleitores nas redes sociais, temos fenômenos como Donald Trump. Vimos essa combinação da simplificação do discurso com o poder da mídia há 20 anos na Itália com Silvio Berlusconi [premiê]. Vemos isso de forma um pouco mais refinada com Trump e em variantes mais grosseiras em Varsóvia [presidente Andrzej Duda] e Budapeste [premiê Viktor Orbán].

Mas eles não são a maioria. A maioria das pessoas ainda quer a via democrática. O problema é que a maioria se cala. As forças pró-democráticas não se mobilizaram em massa contra esses movimentos. Tem uma frase do filósofo Edmund Burke: “para que os maus vençam, basta que os bons se calem”. Acredito nisso.

A Alemanha vive uma onda de protestos de extrema-direita. Crê que eles são isolados ou representam algo significativo?
Essas pessoas violentas são uma minoria. Mas é o que acabo de dizer: se a grande maioria não fizer uma oposição visível e em alta voz, eles vão dominar a cena. Espero que haja um grande movimento na Alemanha para dizer a esse pessoal que eles não representam o nosso país.

Folha de S. Paulo